Por Fernando Adam
- Check-In
O naufrágio do Titanic nunca me chamou a atenção, sempre achei um assunto distante por “n” motivos; navio à vapor – que obsoleto; europeus indo ao EUA – boa sorte; a dimensão do desastre? – nem é o maior naufrágio, porém algumas coincidências me fizeram entender o porquê desta história ser contata tantas vezes. O que segue são esses “por quês” em forma de um relato, na melhor hipótese uma análise rasa, de como a natureza humana pode levar à falha mesmo associada a melhor tecnologia de sua época.
- O início
Faz algum tempo participei de um projeto de um andar corporativo, diversas disciplinas foram contratadas (hidráulica, elétrica etc.) minha responsabilidade era o sistema de climatização, nada absurdamente difícil apesar de um pouco trabalhoso, havia uma certa tranquilidade no início por ser desenvolvido com alguns conceitos de BIM, por exemplo, a integração de diversas disciplinas em uma maquete virtual, isto facilita (muito) a gestão do projeto.
- O fim
Posso lhes garantir que o projeto todo foi um caos, aconteceu de tudo um pouco; falta de comunicação, falhas individuais e operação incorreta de ferramentas, são bons exemplos. Se fosse um barco teríamos afundado, fiquei realmente feliz quando o projeto acabou.
- O meio
Em algum momento em que tudo já estava atrasado e precisava ser refeito, estava eu num sábado à noite trabalhando e como de costume deixei a TV ligada, a chamada da próxima atração me prendeu a atenção “Saiba como o Titanic, um navio de projeto robusto e comandante experiente, naufragou!”, disse o cara do History Channel então aproveitei para fazer uma pausa quando assistindo o documentário. Foram 45 minutos bastante elucidativos, percebi “coincidências” entre a minha experiencia e os fatos que levaram ao naufrágio do Titanic, obviamente as escalas são diferentes, porém é inconfundíveis a semelhança do que as une, a nossa condição humana.
- O cliente não tem sempre razão
Algo que me chamou muita atenção no Titanic foi a falta de tato do comandante Sr. Edward Smith, homem experiente, que se deixou levar pela conversa de um financiador do navio, sobre como a chegada antecipada do navio, seria bem-vista. A ganância e orgulho, são combinações bem perigosas e nas mãos de quem comanda, são fogo e gasolina. Quem nunca saiu chamuscado de um projeto devido ao simples desejo de um “líder” que não enxergou o custo real do que “pediu”.
- Responsável irresponsável
Infelizmente é comum nos envolvemos em algo que perdeu o controle, por pura inocência ou desconhecimento nos colocamos à disposição e topamos participar de coisas que rapidamente fogem da nossa capacidade.
O Sr. Frederick Fleet era o vigia na noite que o Titanic afundou, ocorre que ele estava em seu posto sem binóculos, item básico para quem deveria observar o gelo na água. Quando subiu na torre ele se tornou responsável pela segurança de mais de 2.000 pessoas sobre um mar congelante. Culpa dele o navio ter afundado? Também. Mas acredito que o pior erro deste funcionário foi subir ao posto sabendo de sua responsabilidade, sem ter protestado veementemente ao seu superior por não ter recebido o equipamento necessário para realizá-la.
O Sr. Fleet é sem dúvida o elo mais fraco da corrente. Consigo imaginar claramente o comandante Smith dizendo algo como “Culpa do imbecil do vigia”, fica o registro que o Sr. Fleet tirou a própria vida anos depois, burnout.
- Equipe de especialistas
No Titanic a primeira viagem foi realizada por uma equipe de especialistas do ramo, só havia os melhores funcionários da Star White (dona do navio). Sem dúvida trabalhar com uma equipe coesa e experiente é fantástico. Mas isso os salvou? Não. Já ouvi que “…contrato apenas pessoal de nível sênior para que não errem”. Ledo engano. Confiança mal depositada ou perversamente depositada em algo dispensável, o funcionário.
- Falta de treinamento e procedimentos
Essa é um clássico. Ter a melhor tecnologia e não saber usá-la. Quantas vezes você já teve que aprender apenas observando? Sem base ou procedimento. As equipes do Titanic não foram treinadas para operar os barcos salva vidas, não havia procedimento para turnos de vigia no rádio no período da madrugada. Ter a ferramenta e saber 10% de seu funcionamento parece uma constante lá em 1912 quanto aqui em 2024.
- Check-Out
Com dito no início, a intenção era realizar um relato, um registro, no máximo uma análise de nossa condição como engrenagens em um sistema muito maior. Estamos presos à ciclos, pandemia de 1919 e 2021, crise financeira de 1929 e 2008, primeira guerra mundial e segunda guerra mundial, aparentemente o desastre é uma condição natural humana.
Há uma rotina na aviação muito interessante, após um acidente é feito um relatório que é publicado e enviado a toda comunidade aeronáutica, a ideia não é apontar dedos, mas avisar a todos para que os erros não se repitam.
Imaginem como ficaria a caixa de entrada do e-mail do seu gerente que vive dizendo que “Foguete não da ré”.
Autor
Fernando Adam. Engenheiro Mecânico, licenciado em Física, com Mestrado na área de Térmica e Fluidos. Coordenador de Manutenção e Obras já atuou em diversas empresas e projetos do ramo. Professor e autor de artigos sobre o ensino da engenharia, eficiência energética e termodinâmica.